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ISABEL MORAIS RIBEIRO FONSECA

castelafonseca@sapo.pt

A VELHINHA TECIA "CONTO"

As suas mãos teciam numa noite

De inverno longa e fria

As serras cobriam-se de neve

O rio detinha-se congelado

Ela tecia o fio de lã

Como fios transparentes de seda

As folhas mudavam de cor das árvores quase despidas

Dentro de casa a lareira acesa

Ela continuava a tecer os fios finos de lã

O seu amor era incondicional e divino

O que sentia pelos seus amados filhos

Lá longe nas grandes cidades

Dizia ela os meus amores

Docemente contemplava com fervor

O caminho entre as fragas.

Cheias de neve

Onde o peito tanto doía de saudades

Aquelas saudades d`alma pura

De vários sentimentos que ardem no fogo

Dentro de água que o gelo detinha e o rio não corria

Vida estreita na vivência

Que ninguém duvide dos seus longos anos.

As suas mãos teciam a manta que lhe cobrira

O corpo como uma mortalha

De bravura esta sua humilde vida sofrida

Onde rezava e colhia tantas bênçãos

Do Senhor seu Deus

Tantos favores que Deus

Lhe dava pela sua perseverança

Pela fé que tinha mesmo nos dias de dor, de mágoa

Ela era sempre muito abençoada.

Ela dizia que Deus é o meu caminho

Sem ele não resta nada, só pó.

Tinha um coração de amor e sabedoria

Dizia ela que tinha aprendido com os seus pais

Gente humilde, sábia, honesta

E muito respeitada pelo povo onde mora

Está uma noite de inverno fria e longa

Ela continuava a tecer com os fios fininhos de lã

Da sua mortalha ao pé da lareira

Estava contente

Sentia-se feliz porque sabe que Deus

Ira chamá-la em breve

A qualquer hora , dizia tenho que acabar

Estou nesta empreitada à quase 80 anos

Estou muito feliz por que Deus

vai estar à minha espera

Bendita senhora já tão velhinha

Benditos os lírios do campo

E todas as flores silvestres

Só Deus cuida delas

Como cuidou de mim estes anos todos

Benditos todos os meus filhos que pari

Com muitas lágrimas de dor

Com sabor a mel que era amor

Tecia tecia os fios de lã, finos fios como seda

Rezava, rezava, tecia e dizia a Deus

Senhor está quase pronta a minha mortalha

Que me cobrirá ao encontro marcado

Contigo quando chegar a hora.