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ISABEL MORAIS RIBEIRO FONSECA

castelafonseca@sapo.pt

PRÓPRIO


Queimamos os papeis

Deixamos nas paredes musgo

Em cinzas rezamos a Deus as nossas dores

Carregamos as horas que já deixaram de ser nossas

Palavras estreitas e fortes do mundo

A noite mordia no escuro

Enchia de pedras as sombras queimadas

Ouvia o silencio de olhos abertos

Sem um rastro de esperança

Mortalha umbilical, presença de mim próprio

Rezei, implorei, no final esqueci o porquê?

A carne que roí-se a si mesmo lentamente

Um canto, um pranto escondidas do vento

Onde mordeu os beiços da nossa própria dor

Soluços que perfazem anjos de carne

Filhos que vergam, sujos de sangue que não o nosso

Impenitente fogo queimado, como sujo dos lobos

Na miseras noites engavetadas de um túmulo de ventos apertados

Rotas cartográficas da serra descendo o rio, até aos eucaliptos

Queimamos e rasgamos os papeis que escrevemos

Onde só deixamos cinzas no corpo, tantas vezes na nossa própria alma!